Quando penso sobre justiça, me vem à cabeça a era grega clássica, quando os atenienses fundaram uma sociedade que se orgulhava de seus princípios de democracia e justiça.
O ponto crucial é sempre um “Sim, mas…” seguido por perguntas que farão você duvidar do que disse inicialmente: uma forma que ele encontrou para chegar ao núcleo de qualquer problema antes de tentar propor uma solução.
Eu diria que, em geral, somos capazes de identificar quando algo é justo ou não, mas não conseguimos explicar o que é a própria justiça. Podemos reconhecê-la quando a vemos em ação, mas fracassamos ao tentar defini-la. Claro, vale a pena se empenhar em esclarecer a diferença entre justiça e igualdade: a igualdade é uma forma de justiça, mas justiça nem sempre significa o mesmo que igualdade.
Diferentes tipos de igualdade
O que nos leva ao problema de definir o que entendemos por “igualdade”. E a verdade é que existem diferentes tipos de “igualdade”.
Assim como os atenienses procuraram criar uma sociedade justa, alguns dos pensadores revolucionários nos EUA e na França, no século XVIII, também queriam fundar uma sociedade mais igualitária.
Alguns diriam que a injustiça se deve ao privilégio: algumas pessoas nascem em posições de poder e riqueza, enquanto outras são excluídas. Mas isso pode ser remediado desde que se proporcionem a todos os mesmos direitos a certas coisas, uma igualdade de oportunidades.
Outros diriam que está ótimo ter igualdade de oportunidades por “lei”, mas que isso não serve de consolo se o sistema continua lhe negando a capacidade de fazer algo concreto. Não é só o privilégio que leva à injustiça, é também o famoso “direito adquirido”: nossa sociedade tende a proteger os direitos de certas pessoas, especialmente “os direitos”.
E ainda há a causa básica dos problemas, que é a distribuição desigual da riqueza. Não importa quais sejam seus direitos, não haverá igualdade de resultado enquanto isso não for abordado.
Talvez haja, então, dois tipos diferentes de igualdade: a de oportunidades e a de resultados; os direitos iguais ou a participação equitativa. O problema é: como você decide quem merece o quê?
O véu de ignorância
Podemos pensar sobre a situação e concordar que o mundo não é justo. A justeza é o princípio subjacente à justiça. E se, por acaso, você tivesse nascido numa classe privilegiada e se tornasse presidente de uma empresa ganhando uma fortuna? Em particular, você poderia até admitir que isso não é exatamente justo, mas não reclamaria.
Aqueles com alta renda tendem a descartar os gritos por igualdade como “política da inveja”, enquanto os que ganham mal denunciam a desigualdade crescente como sendo a “política da ganância”.
Tudo isso é injusto, e ambos não podem ter razão. Mas existiria um meio de chegar a uma visão mais justa?
Imagine que você estivesse abrindo um negócio com outras pessoas e não soubesse se viria a ser o CEO, o gerente de médio escalão ou um trabalhador do chão de fábrica. Como isso afetaria sua forma de decidir a estrutura salarial e a duração do tempo de trabalho?
O fato é que, como você estaria trabalhando atrás do “véu de ignorância” sobre sua posição na empresa, é bem provável que optasse por um sistema equitativo, que fosse justo para todos.
Você é quem escolhe como pensar
Mesmo assim podemos discordar e pensar que o princípio de justiça é o “direito adquirido”: não privilégio, mas direito legal. E isso pode resultar na desigualdade que você acha injusta, mas que é, mesmo assim, justa. Se você possui algo, ninguém mais tem direito a isso, a não ser que você o venda, dê de presente ou o tenha adquirido ilegitimamente.
Assim, corrigir a injustiça reduzindo a fortuna do seu chefe e aumentando a sua seria injusto, quer você goste ou não: ele faz jus, como gerente ou dono da empresa, ao que conquistou, contanto que tenha adquirido suas posses por meios legítimos. E você também faz jus ao que obteve, nada mais, nada menos.
O fato é que podemos pensar sobre o motivo das injustiças e pensar na desigualdade, que não é injustiça. Podemos defender a igualdade de oportunidades ou a igualdade de resultados; definir a justiça como justeza, ou até como direito adquirido. Você é quem escolhe como pensar.