Pular para o conteúdo principal

OCDF · O Conselho do Futuro

← Artigos
VII · Como se compete e se perde a posição

Jensen Huang, o engenheiro que criou a GPU e o CUDA: as três decisões que fizeram a NVIDIA valer US$ 5 trilhões

Jensen Huang, o engenheiro que criou a GPU e o CUDA: as três decisões que fizeram a NVIDIA valer US$ 5 trilhões

O homem que cunhou o termo GPU, o chip que hoje treina todo modelo de inteligência artificial, teve que começar a carreira dizendo ao único cliente da própria empresa que o produto estava errado. Foi em 1996, em Tóquio, numa reunião com a Sega. Jensen Huang tinha 33 anos e a NVIDIA tinha caixa para meses. Se o japonês do outro lado da mesa dissesse não, a empresa fechava. Ele disse sim. No fim de outubro de 2025, essa mesma empresa foi a primeira da história a tocar cinco trilhões de dólares de valor de mercado.

A trajetória costuma ser contada como história de garagem e de sorte. Lida com cuidado, ela é uma sequência de três decisões com data, e cada uma tem uma conta por trás.

De lavador de pratos no Denny’s a projetista de chips na AMD

Jen-Hsun Huang nasceu em 17 de fevereiro de 1963, em Taiwan. As fontes divergem entre Tainan e Taipei. Em 1973, com nove anos, foi mandado com o irmão de dez para a casa de um tio em Tacoma, nos Estados Unidos. O tio matriculou os dois no Oneida Baptist Institute, no Kentucky, achando que era um internato de prestígio. Era uma escola religiosa para jovens com problemas de disciplina. Jensen limpava os banheiros todos os dias. Em 2019, a mesma escola deu o nome dele a um prédio novo.

Aos quinze anos, em 1978, o primeiro emprego: lavador de pratos num Denny’s de Portland, rede americana de lanchonetes 24 horas. Vale desmontar o mito logo. Ele não fundou a NVIDIA no mesmo Denny’s onde lavou pratos. Foram dois restaurantes, a mais de mil quilômetros. O da fundação fica na Berryessa Road, em East San Jose, Califórnia, e a mesa tem placa desde setembro de 2023.

Formado em engenharia elétrica pela Oregon State University em 1984, foi projetista de microprocessadores na AMD, até hoje a principal rival da NVIDIA e da Intel em chips. Passou à LSI Logic, fabricante de chips sob encomenda, e fez mestrado em Stanford à noite, concluído em 1992. Foi lá que conheceu Chris Malachowsky e Curtis Priem, engenheiros da Sun Microsystems, a fabricante de estações de trabalho que dominava a computação profissional nos anos 1980. Os três fundaram a NVIDIA em 5 de abril de 1993. Segundo o podcast Acquired, havia cerca de noventa startups de chips gráficos disputando o mercado naquele momento. A maioria desapareceu.

Tóquio, 1996: a reunião com a Sega que salvou a NVIDIA

O primeiro chip, o NV1, saiu em 1995 e desenhava imagens a partir de superfícies curvas. A indústria convergia para triângulos. Num podcast da Sequoia, o relato é de 250 mil unidades enviadas e 249 mil devolvidas. Em 1996, a Microsoft padronizou o Direct3D, baseado em triângulos, e a arquitetura da NVIDIA ficou na contramão de tudo.

O único contrato relevante era o NV2, chip para o próximo console da Sega, a gigante japonesa que disputava o mercado de videogames com Nintendo e Sony. O NV2 usava a mesma arquitetura condenada. Jensen foi a Tóquio encontrar Shoichiro Irimajiri, então um dos principais executivos da Sega, disse que a escolha técnica estava errada, recomendou que a Sega buscasse outro fornecedor e pediu que os cinco milhões de dólares ficassem na empresa como investimento. Irimajiri pensou por alguns dias e respondeu que faziam. A Sega virou acionista de uma startup que tinha acabado de admitir a falha.

No podcast de Joe Rogan, Jensen fez a conta: a Sega vendeu a participação por cerca de quinze milhões de dólares logo após a abertura de capital. Se tivesse mantido, valeria hoje perto de um trilhão. Em julho de 2026, ele voltou ao antigo fliperama da Sega em Akihabara para agradecer a Irimajiri pessoalmente.

Com o dinheiro, veio a segunda decisão da crise: demissão de mais da metade da equipe, entre metade e setenta por cento conforme a fonte. Quem ficou recebeu uma missão, o RIVA 128, compatível com o padrão da Microsoft, em nove meses, num setor em que o ciclo normal era de dois anos. Para encurtar o prazo, ele gastou cerca de um milhão de dólares, entre um terço e metade do caixa, num emulador de hardware, máquina que simula o chip antes de ele existir. O RIVA 128 saiu em 25 de agosto de 1997, com cerca de um mês de folha de pagamento em caixa. Em quatro meses, vendeu mais de um milhão de unidades. Daí vem o lema que abriu apresentações internas por anos: estamos a trinta dias de fechar.

O relato heroico costuma omitir uma parte. A NVIDIA não cumpriu o contrato original. O NV1 foi erro de engenharia e de leitura de mercado. E a virada foi paga, em parte, por quem foi demitido.

GeForce 256 e o nascimento do termo GPU

Em 22 de janeiro de 1999, a NVIDIA abriu capital na NASDAQ, código NVDA, a doze dólares por ação, captando cerca de 42 milhões de dólares. No segundo semestre veio a GeForce 256, vendida como a primeira GPU do mundo, sigla de Graphics Processing Unit. É preciso precisão: aceleradores gráficos já existiam. O que a NVIDIA fez foi cunhar e popularizar o termo para um chip que assumia sozinho cálculos antes feitos pelo processador principal. Engenharia e marketing na mesma jogada.

O contraste está na 3dfx, líder de placas para games no fim dos anos 1990. Ela apostou num padrão próprio, o Glide, em vez do padrão da Microsoft. Quebrou. A NVIDIA, que tinha jogado fora a própria tecnologia para abraçar o padrão da indústria, ficou com o mercado.

CUDA: uma década pagando por algo que ninguém pedia

Em 2006, a NVIDIA lançou o CUDA, Compute Unified Device Architecture. A ideia: uma GPU, feita para desenhar milhões de triângulos ao mesmo tempo, é uma máquina de fazer muitas contas simples em paralelo, e o CUDA permitia a qualquer programador usar isso para qualquer cálculo. A decisão difícil foi colocar o CUDA em todas as placas, inclusive as de games. Cada adolescente que comprava uma placa para jogar passou a pagar por engenharia que não pediu. Wall Street viu uma fabricante de placas de vídeo gastando em pesquisa científica. Entre 2007 e 2008, com a crise financeira no meio, o valor de mercado caiu cerca de oitenta por cento.

Ele não previu a inteligência artificial em 2006. Construiu uma ferramenta geral e esperou alguém achar o uso. Em 2012, na Universidade de Toronto, Geoffrey Hinton, que ganharia o Nobel de Física em 2024, orientava Alex Krizhevsky e Ilya Sutskever, futuro cofundador da OpenAI. A rede neural AlexNet, escrita em CUDA e treinada em duas placas GeForce GTX 580, placas de game de loja, venceu a competição ImageNet com vantagem inesperada. Segundo uma fonte, a equipe de Hinton pediu apoio à NVIDIA antes e ouviu não.

O que veio depois é o que analistas chamam de fosso. Quando o aprendizado profundo explodiu, os pesquisadores do mundo já programavam em CUDA. Um concorrente podia fazer um chip tão bom. Não podia fazer os pesquisadores desaprenderem a plataforma.

Cripto, ChatGPT e os cinco trilhões

A subida não foi linear. Em 2018, mineradores de criptomoedas compraram GPUs em volume. Em março, no Mad Money da CNBC, Jensen disse que a cripto tinha vindo para ficar. Quando os preços caíram, as placas encalharam, e em novembro de 2018 a ação caiu cerca de dezoito por cento no pós-mercado. Em 2022, a SEC multou a NVIDIA em 5,5 milhões de dólares por não informar adequadamente quanto da receita de games vinha de mineração.

Em novembro de 2022, a OpenAI lançou o ChatGPT, e cada modelo precisava ser treinado em milhares de GPUs que os engenheiros já sabiam usar. Os marcos têm data: um trilhão de dólares em 30 de maio de 2023, três trilhões em 5 de junho de 2024, quatro trilhões em julho de 2025 e cinco trilhões no fim de outubro de 2025. Jensen detém cerca de 3,5% da empresa e a Forbes o colocou entre as dez maiores fortunas do mundo em 2025. Quase todos os chips são fabricados pela TSMC, em Taiwan, a ilha onde ele nasceu, o que transformou a empresa numa peça entre Estados Unidos e China, com restrições de exportação desde outubro de 2022.

O que essa história ensina

Eu leio a história em três contas. A primeira é sobre timing da verdade. Jensen avisou a Sega enquanto o cliente ainda podia se proteger, e por isso saiu da sala com um investidor, não com um processo. A mesma conversa depois do prazo acaba com a relação.

A segunda é sobre padrão de mercado. Quando o padrão muda contra você, migrar rápido vale mais que defender o que você construiu. A NVIDIA abandonou a tecnologia que a fundou em meses. A 3dfx defendeu a dela e quebrou com o melhor produto do padrão errado.

A terceira é a mais citada e a mais mal aplicada. Apostar cedo no que o mercado ainda não paga só funciona quando outra linha de receita banca a espera. O CUDA foi financiado por uma década de placas de game. O Nubank, fundado em 2013, só sustentou quase dez anos de prejuízo até o primeiro ano lucrativo, em 2023, porque captou bilhões de investidores pacientes. Sem esse caixa, não é aposta cedo. É aposta total.

Para quem quer ir além, vale ler A Máquina que Pensa, de Stephen Witt (2025), porque cobre a infância no Kentucky, a crise da Sega e a construção do CUDA com entrevistas diretas, e porque mostra o custo humano que o relato heroico deixa de fora.

Fontes

  • Stephen Witt, A Máquina que Pensa (2025)
  • Podcast Acquired, episódio com Jensen Huang (2023)
  • Podcast da Sequoia Capital sobre a NVIDIA
  • Entrevista de Jensen Huang ao 60 Minutes, CBS
  • Entrevista de Jensen Huang ao podcast de Joe Rogan
  • Mad Money, CNBC, março de 2018
  • SEC, acordo com a NVIDIA sobre divulgação de receita de mineração (2022)
  • Palestra de Jensen Huang na escola de negócios de Stanford (2024)
  • Forbes, lista de maiores fortunas (2025)
Na mesma matéria · VII · Como se compete e se perde a posição
Comunidade gratuita
Politica de PrivacidadeTermos de UsoContato
O Conselho do Futuro