Sam Altman, o CEO da OpenAI, a empresa do ChatGPT, foi demitido por videochamada em 17 de novembro de 2023. Quatro conselheiros, sem aviso aos investidores e sem aviso à Microsoft, que já tinha colocado bilhões na companhia. Cinco dias depois ele estava de volta ao cargo, e três dos quatro que o demitiram tinham saído. O estatuto não o protegeu, e ele mesmo o havia desenhado quatro anos antes. O que o trouxe de volta foi uma carta assinada por mais de setecentos dos cerca de 770 funcionários, dizendo que iriam embora com ele.
Eu leio a trajetória dele como vinte anos de uma única aposta: velocidade e escala vencem cautela e regra. Cada rodada custou um aliado. Elon Musk, parte da equipe de segurança, o próprio conselho. A melhor fonte para entender o personagem é a biografia “The Optimist”, de Keach Hagey, publicada em 2025, e vale ler porque ela não trata Altman como herói nem como vilão, e sim como alguém que escolhe o mesmo tipo de risco repetidas vezes.
Loopt e Y Combinator: o fracasso de 43 milhões de dólares
Altman nasceu em Chicago em 22 de abril de 1985 e cresceu em Clayton, no Missouri. Mãe dermatologista, pai corretor de imóveis, o mais velho de quatro irmãos. Aos oito anos ganhou um Macintosh, aprendeu a programar e desmontou a máquina para ver como funcionava. Em 2005, aos dezenove, largou ciência da computação em Stanford. Não para fundar a OpenAI, que viria dez anos depois, mas para tocar a Loopt, um aplicativo que mostrava onde estavam os amigos numa época em que o iPhone não existia. A Loopt entrou no primeiro lote da Y Combinator, a aceleradora de Paul Graham que investe pouco dinheiro em startups bem no começo. O Reddit estava no mesmo lote.
Anos depois, à revista Fortune, ele resumiu a decisão de largar a faculdade numa frase: a maioria das coisas não é uma porta de mão única. Largar Stanford era reversível.
A Loopt dependia de comprar dados de localização das operadoras, antes de o GPS virar padrão, e chegou a cerca de cinco milhões de usuários contra dez milhões do Foursquare em 2011. O conselho da própria Loopt tentou duas vezes tirá-lo do cargo, segundo reportagem de Ronan Farrow de 2026; aliados dizem que as tentativas não eram sérias. Em 9 de março de 2012 a Green Dot, uma empresa de cartões pré-pagos, comprou a empresa por 43,4 milhões de dólares. Quase dez milhões eram bônus para reter funcionários, e o aplicativo saiu das lojas. Foi um acqui-hire, compra do time e não do produto. A justificativa de Altman, de que a peça crítica era amarrar comércio e pagamento, mostra uma lógica que volta em escala de trilhões: a infraestrutura por baixo vale mais que o aplicativo em cima.
Em fevereiro de 2014, aos 28 anos, ele assumiu a presidência da Y Combinator com a meta de financiar mil empresas por ano e abrir a aceleradora para tecnologia pesada, como energia nuclear e biotecnologia. O método, apostar em pessoas e em velocidade, lançar antes de estar pronto e insistir no que cresce, tinha na carteira o Airbnb, maior plataforma de hospedagem do mundo, o Stripe, que processa pagamentos de boa parte da internet, e o Reddit. Pessoalmente, Altman investiu cedo na Helion, de fusão nuclear, com 375 milhões de dólares do próprio bolso em 2021, e presidiu o conselho da Oklo, de pequenos reatores. Em janeiro de 2016 financiou um piloto de renda básica em Oakland. A saída, em março de 2019, tem duas versões: o Washington Post relatou em 2023 que Graham voou para tirá-lo; Graham diz que apenas pediram que ele escolhesse entre a aceleradora e a OpenAI.
A reunião de 2018 com Elon Musk e a estrutura híbrida
A OpenAI foi anunciada em 11 de dezembro de 2015 como laboratório sem fins lucrativos, com Altman e Musk, dono da Tesla e da SpaceX, como copresidentes, e Greg Brockman e Ilya Sutskever entre os fundadores. O bilhão de dólares prometido era a soma de vários doadores, incluindo Reid Hoffman e Peter Thiel; segundo a OpenAI, Musk doou menos de 45 milhões. Treinar modelos exige milhares de chips rodando por semanas, e isso custa centenas de milhões, depois bilhões. Doação não paga essa conta.
A cena decisiva ocorreu entre o fim de 2017 e o começo de 2018, num escritório dividido com a Neuralink. A versão é a de Brockman no julgamento de 2026, e Musk contestou pontos. Musk queria a maioria das ações, o controle do conselho e o cargo de CEO de um braço com fins lucrativos, ou anexar a OpenAI à Tesla. As opções eram três: entregar o controle, seguir como entidade sem fins lucrativos e ficar atrás do Google, ou inventar uma estrutura que levantasse bilhões sem entregar a empresa a uma pessoa. Decidiram pela terceira. Musk saiu do conselho em fevereiro de 2018, cortou as doações e escreveu que a OpenAI estava num caminho de fracasso certo. Reid Hoffman cobriu salários.
Em 2019 nasceu a OpenAI LP, com retorno dos primeiros investidores limitado a cem vezes o aporte e o conselho da entidade sem fins lucrativos no comando. Em 22 de julho de 2019 a Microsoft, a gigante de Bill Gates, investiu um bilhão; até 2025 o total chegaria a cerca de treze bilhões. Esse desenho resolveu o problema de 2019 e criou o de 2023.
ChatGPT, 30 de novembro de 2022: lançar antes de estar pronto
O ChatGPT saiu como prévia de pesquisa, não como produto acabado. O Google tinha tecnologia comparável e segurou por cautela; a Anthropic, de Dario Amodei, também segurou. Resultado: um milhão de usuários em cinco dias, cerca de cem milhões de usuários mensais em dois meses, segundo estimativa do UBS com dados da Similarweb reportada pela Reuters em fevereiro de 2023, e mais de um bilhão de usuários por semana em 2026. Em janeiro de 2023 a Microsoft anunciou novo investimento, noticiado em cerca de dez bilhões. A OpenAI tinha capital, computação e o produto mais usado do mundo. Não tinha um conselho informado.
Os cinco dias de novembro de 2023
O comunicado da demissão dizia que Altman não tinha sido consistentemente franco. Brockman saiu em solidariedade, a Microsoft ofereceu um laboratório aos dois, a carta dos funcionários circulou, e na noite de 21 de novembro saiu o acordo: Altman de volta, conselho reformulado sob Bret Taylor, ex-copresidente do Salesforce. Helen Toner, uma das conselheiras que votou pela saída, contou depois que o conselho soube do lançamento do ChatGPT pelo Twitter, que Altman não teria informado ser dono do fundo de startups da OpenAI e teria dado informações imprecisas sobre segurança. A investigação do escritório WilmerHale concluiu que a demissão estava dentro do poder do conselho, mas não era obrigatória; o relatório nunca foi publicado e o novo conselho contestou partes da versão de Toner. Altman não caiu por resultado. Caiu por confiança.
Há um paralelo brasileiro de mecânica, não de gravidade. Em janeiro de 2023 a Americanas revelou inconsistências contábeis de cerca de vinte bilhões de reais, e o conselho disse que não sabia. Não há acusação de fraude contra Altman. Mas em ambos os casos um conselho descobriu pelos outros o que deveria ter ouvido de quem comanda.
Escala, Pentágono e as críticas
Depois de 2023 a estratégia ficou explícita. Em janeiro de 2025 veio o Stargate, data centers com Oracle e SoftBank, na casa das centenas de bilhões. Em outubro de 2025 o braço comercial virou empresa de benefício público, com a OpenAI Foundation mantendo o controle e cerca de 26% das ações. Em março de 2026 a avaliação chegou a 852 bilhões de dólares, com prejuízo estimado de nove bilhões em 2025 e compromissos de computação em torno de 1,4 trilhão, parte deles circular: a Nvidia investe na OpenAI, que compra chips da Nvidia. O processo de Musk terminou em 2026 com um júri decidindo, por unanimidade e em menos de duas horas, que o prazo para processar vencera em agosto de 2021; ninguém julgou o mérito, e Musk recorreu.
Em 2026 a Anthropic recusou cláusulas de um contrato militar sobre vigilância em massa e armas autônomas, foi rotulada pelo governo como risco à cadeia de suprimentos, e a OpenAI fechou o contrato horas depois. Altman admitiu que a sequência pareceu oportunista e desleixada, emendou os termos e pediu que a Anthropic recebesse as mesmas condições.
As críticas têm o mesmo peso. Três instituições, três conselhos, a mesma queixa. Em maio de 2024 Sutskever e Jan Leike deixaram a equipe de segurança, e Leike escreveu que a cultura de segurança ficara atrás de produtos brilhantes. A Vox revelou acordos de saída que ameaçavam ações de ex-funcionários críticos. O teto de lucro foi afrouxado ao longo dos anos, como documenta o projeto OpenAI Files. O World, de escaneamento de íris, teve o pagamento pela coleta suspenso pela ANPD no Brasil em 2025. E há o fecho curioso: Altman não tem ações da OpenAI. A fortuna de cerca de 3,3 bilhões, estimada pela Fortune em 2026, vem de Helion, Stripe e Reddit.
O que essa história ensina
- Separe porta de mão dupla de porta de mão única. Lançar produto, testar preço e abrir canal são reversíveis; faça rápido e corrija com o mercado real. A confeitaria que passa três meses discutindo o cardápio perfeito para o aplicativo perde o cliente que já comprou do concorrente.
- Informação não contada vira passivo. Atualize chefe, sócio ou conselho antes do anúncio. Ninguém deve saber do seu lançamento pela internet, mesmo quando o resultado é o melhor da história.
- Quem segura um líder é o time. Setecentas assinaturas valeram mais que o estatuto, e esse capital se acumula em anos de decisões vistas de perto.
- Velocidade sem comunicação parece oportunismo. Quando agir rápido, publique o raciocínio junto.
O contraste com Dario Amodei não é certo contra errado. São dois apetites de risco: Altman paga em reputação e governança para ganhar escala; Amodei paga em contratos e velocidade para manter regras. A decisão, para quem empreende ou trabalha numa empresa, é escolher antes da crise qual desses custos o negócio aguenta, e escrever isso onde alguém possa cobrar depois.
Fontes
- Keach Hagey, “The Optimist” (2025).
- Fortune, entrevistas com Sam Altman e estimativa de patrimônio (2026).
- Paul Graham, ensaio sobre captação de recursos (2008).
- Ronan Farrow, reportagem sobre a Loopt (2026).
- Washington Post, saída da Y Combinator (2023).
- OpenAI, anúncio de fundação (2015), e-mails publicados (2024) e comunicados de 2023 e 2025.
- Depoimento de Greg Brockman no julgamento Musk vs. OpenAI (2026).
- Reuters, estimativa UBS/Similarweb de usuários do ChatGPT (fevereiro de 2023).
- Helen Toner, declarações públicas; investigação WilmerHale (2024).
- Vox, acordos de saída da OpenAI (maio de 2024); projeto OpenAI Files.
- CNBC, uso do Claude pelos militares americanos (2026).
- ANPD, decisão sobre o World (2025).
- Reid Hoffman, podcast Masters of Scale.