Yuval Noah Harari criou a explicação mais lida do mundo para uma pergunta que todo empresário enfrenta sem perceber: por que uma nota de papel, um contrato ou uma marca valem alguma coisa. Ele chamou isso de ficções compartilhadas, e a ideia sustenta Sapiens, livro que passou de 25 milhões de exemplares e mais de 220 semanas na lista do New York Times. A decisão que gerou o livro, em 2008, foi um risco profissional: um professor de 32 anos da Universidade Hebraica de Jerusalém, historiador de guerras medievais com três livros acadêmicos lidos por algumas centenas de colegas, recebeu a disciplina de introdução à história mundial e decidiu transformar as vinte aulas em vinte capítulos, quase sem notas de rodapé. Na academia, quem fala de tudo erra em algum lugar, e o especialista daquele lugar aponta o erro. Foi o que aconteceu. Este texto organiza o que a obra dele entrega para quem toma decisões, obra a obra, e o que não sobreviveu à revisão dos especialistas.
Sapiens, publicado em hebraico em 2011 e em inglês em 2014, organiza a história em três revoluções: a Cognitiva, há cerca de 70 mil anos, a Agrícola, há 12 mil, e a Científica, há 500. A tese central é que o ser humano é o único animal que coopera em massa com estranhos, e que isso só é possível porque acreditamos coletivamente em coisas que existem apenas enquanto muita gente acredita nelas ao mesmo tempo. Deuses, nações, direitos humanos, dinheiro, empresas.
Ficção, aqui, não é mentira. Uma pedra existe mesmo sem crença. O real só vale enquanto todos aceitam que vale, e nem por isso é golpe. O exemplo do livro é a Peugeot, montadora francesa fundada por Armand Peugeot em 1896. Harari pergunta onde a empresa existe. Não nos carros, que podem ser destruídos sem que ela desapareça. Não nas fábricas, nos funcionários ou nos acionistas, todos substituíveis. Ela existe porque um advogado cumpriu rituais legais e o Estado francês passou a reconhecer uma sociedade de responsabilidade limitada. Os advogados chamam isso de ficção jurídica, e essa ficção emprega centenas de milhares de pessoas.
O Brasil tem os dois lados dessa moeda. Em 1994, o Plano Real criou a URV, a Unidade Real de Valor, uma moeda que não existia em papel nenhum. De março a julho, salários, aluguéis e preços passaram a ser combinados em URV. Quando a nota de real chegou, em primeiro de julho, a confiança já estava construída. Em janeiro de 2023, a Americanas, uma das varejistas mais antigas do país, anunciou inconsistências contábeis da ordem de 20 bilhões de reais. Lojas e estoques eram os mesmos no dia seguinte. A ação caiu mais de setenta por cento em um dia e a empresa entrou em recuperação judicial dias depois. Nenhum ativo físico mudou. A crença mudou. A leitura para quem tem loja ou cargo é direta: reputação e cumprimento de acordo são infraestrutura, não enfeite, e o nome de um funcionário dentro de uma empresa é uma ficção do mesmo tipo.
Crédito como confiança no futuro
A segunda ideia de Sapiens que serve a negócios vem do capítulo sobre a Revolução Científica. Harari chama de descoberta da ignorância o momento em que a Europa moderna admitiu que não sabia e foi buscar, com o navio explorador levando um cientista e sendo financiado por um banqueiro. O motor é o crédito, definido como confiança no futuro: só faz sentido emprestar se o bolo de amanhã for maior que o de hoje. Por milênios ninguém acreditava nisso, e a economia ficava parada. Antes de tomar capital de giro, ou de pedir aumento apostando numa promoção, a pergunta é a mesma: que futuro está sendo prometido, e quem precisa acreditar nele.
O livro tem ainda a provocação mais famosa, a de que a Revolução Agrícola foi a maior fraude da história, com a frase de que o trigo domesticou o homem. A ideia é do biólogo Jared Diamond, autor de Armas, Germes e Aço, num ensaio de 1987. Harari a transformou em frase de camiseta, e isso é parte do método dele.
Homo Deus e a classe inútil: alerta, não sentença
Depois de Sapiens, Harari podia ficar no passado, onde tinha credencial. Escolheu o contrário. Homo Deus, de 2016, trata de biotecnologia, algoritmos e inteligência artificial, áreas em que ele não tem formação. O orientador dele em Oxford, o historiador Steven Gunn, descreveu a estratégia à revista New Yorker: fazer perguntas tão grandes que ninguém consiga dizer que este pedacinho está errado. Gunn falava como elogio. Muitos leram como confissão.
A tese de abertura é a mais mal citada da obra. Harari não diz que fome, peste e guerra acabaram. Diz que deixaram de ser forças incontroláveis e viraram problemas administráveis. Ele reúne os números de mortalidade de 2012: cerca de 56 milhões de mortes, 620 mil por violência humana, 800 mil por suicídio, 1,5 milhão por diabetes. Daí a frase de que o açúcar é mais perigoso que a pólvora. A pandemia de 2020 e a invasão da Ucrânia em 2022 testaram o argumento, e o tom de 2016 envelheceu, embora ele o tenha defendido na imprensa como escolha política, não lei da história.
O termo que mais assustou foi classe inútil: não os desempregados, que a economia reabsorve, mas quem não consegue ser reabsorvido porque a máquina faz o trabalho melhor e mais barato. O uso prático é um exercício frio. Listar as tarefas do dia, separar as que seguem roteiro previsível, que serão automatizadas primeiro, das que exigem negociar exceção ou ler situação ambígua. E aprender a configurar as ferramentas que substituem o trabalho, em vez de competir com elas. A pergunta que fica é a única que ele deixa sem resposta pronta: o que eu faço que uma máquina ainda não faz.
21 Lições e Nexus: reinvenção e mecanismo de autocorreção
21 Lições para o Século 21, de 2018, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, é o livro menos ambicioso e mais utilizável. No capítulo sobre trabalho, a tese é que ninguém terá uma única carreira, e que o problema não é aprender uma vez, mas aos 45 ou 55 anos, quando a estabilidade pesa mais. Na educação, ele endossa os quatro Cs de educadores (pensamento crítico, comunicação, colaboração, criatividade) e afirma que a coisa mais importante a ensinar é a capacidade de mudar. A aplicação é um bloco fixo semanal para aprender algo fora da função.
Nexus, de 2024, é o mais maduro. Corrige uma ingenuidade que ele mesmo compartilhou: a de que mais informação leva a mais verdade. Para Harari, a função primária da informação é conectar pessoas, não representar a realidade. Um boato de WhatsApp conecta muito bem sem uma vírgula de verdade. O que distingue redes que duram é a presença de mecanismos de autocorreção: revisão por pares na ciência, eleições e imprensa livre na democracia. Sistemas que se apresentam como infalíveis acumulam erros até quebrar. Numa empresa, isso vira conselho externo com poder de exigir explicação, alguém com o papel formal de defender o não em compras grandes, e análise de fracasso sem caça a culpados, porque erro escondido é o que quebra sistemas.
As críticas: o que não se sustenta
A primeira grande resenha em inglês, do filósofo Galen Strawson no Guardian, em setembro de 2014, já apontava descuido, exagero e sensacionalismo. Em 2017, o antropólogo C. R. Hallpike acusou o livro de usar um título em latim biológico para parecer ciência dura sendo uma síntese sem método, e lembrou que a Revolução Cognitiva como salto é rejeitada por parte importante da arqueologia desde 2000. Em 2022, a neurocientista Darshana Narayanan listou na Current Affairs erros factuais, especulação como certeza, escassez de referências e pouco crédito às fontes. O biólogo Jerry Coyne resumiu: Harari não é fraude; é descuidado.
Sobre crédito, a crítica tem razão em parte. A ideia de realidades socialmente construídas vem de Berger e Luckmann em 1966, de Benedict Anderson em 1983 e de John Searle nos anos 1990. A sombra mais séria, porém, não é acadêmica. Em 2019 veio a público que a edição russa de 21 Lições havia trocado exemplos de mentiras de Vladimir Putin e suavizado a descrição da tomada da Crimeia, com aprovação do autor, segundo o Times of Israel. Um livro sobre pós-verdade, de um autor que em 2024 escreveria que instituições duram por corrigir os próprios erros. Nesta pesquisa não localizamos resposta pública ponto a ponto dele às resenhas nem errata das edições.
Em que ordem ler
Comece por Sapiens, que dá o vocabulário. Depois vá direto a Nexus, o mais recente e o único que trata da inteligência artificial que existe hoje. Use 21 Lições por capítulo, como consulta. Deixe Homo Deus por último e leia como registro de como um pensador sério via o futuro antes de o futuro responder. Eu leio Harari como mapa, não como manual: um mapa muito bom, com pontos errados, que não serve como fonte para fato específico de arqueologia ou antropologia.
O que essa história ensina
- Confiança é infraestrutura. Marca, contrato e nome valem o que os outros acreditam que valem, e a Americanas mostrou em 2023 que isso zera num dia sem que uma loja mude.
- Aprenda fora da função toda semana. A pergunta que decide uma carreira não é o que você sabe, é o que você faz que uma máquina ainda não faz.
- Dê a alguém o poder formal de dizer que você errou. O sistema que se acha infalível não erra menos; só descobre o erro quando ele já custou caro. Harari acertou nessa teoria e é cobrado exatamente por ela.
Fontes
- Harari, Yuval Noah. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. L&PM, 2015.
- Harari, Yuval Noah. Homo Deus (2016), 21 Lições para o Século 21 (Companhia das Letras, 2018) e Nexus (2024).
- Strawson, Galen. Resenha de Sapiens. The Guardian, 11 de setembro de 2014.
- Hallpike, C. R. Resenha de Sapiens. New English Review, dezembro de 2017.
- Narayanan, Darshana. Ensaio sobre Harari. Current Affairs, julho de 2022.
- Perfil de Yuval Noah Harari. The New Yorker, 2020.
- Times of Israel e Haaretz sobre a edição russa de 21 Lições, julho de 2019; Coda Story sobre o mesmo caso.
- Frankfurter Allgemeine Zeitung sobre a Sapienship, 2022.
- Diamond, Jared. The Worst Mistake in the History of the Human Race, 1987.