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Amy Edmondson e a segurança psicológica: o estudo de Harvard que mostrou por que as melhores equipes registram mais erro

Amy Edmondson e a segurança psicológica: o estudo de Harvard que mostrou por que as melhores equipes registram mais erro

Amy Edmondson criou o conceito de segurança psicológica, a ideia que o Google adotou em 2015 como a dinâmica mais importante de uma equipe e que hoje aparece em políticas de segurança de hospitais e companhias aéreas. A origem dessa ideia é um dado que não fechava. No início dos anos 1990, Edmondson era doutoranda em Harvard e participava de um estudo cuja hipótese parecia óbvia: equipes de hospital que trabalham melhor juntas erram menos. Os dados disseram o oposto. As unidades com melhor chefia e melhores relações eram justamente as que tinham as maiores taxas de erro de medicação. Ela contou, anos depois, em entrevista à rádio pública americana, que pensou em largar a pós-graduação.

O estudo de 1996 em hospitais de Boston

O projeto não era dela. Era de Lucian Leape, cirurgião pediátrico que havia deixado a sala de cirurgia para estudar erro médico, com financiamento público. O desenho era simples: oito unidades sorteadas em dois hospitais-escola de Boston, erros de medicação rastreados por seis meses em revisão diária de prontuários. A parte de Edmondson era um questionário sobre liderança e clima de equipe, adaptado de um instrumento usado em aviação. Leape se inspirava numa pesquisa da NASA feita por H. Clayton Foushee, segundo a qual tripulações cansadas que já tinham voado juntas erravam menos do que tripulações descansadas que nunca tinham se visto.

Quando os números chegaram, a diferença entre as unidades ia de cerca de dois erros detectados por mil pacientes-dia até quase vinte e quatro. Dez vezes. E a correlação com a qualidade da equipe era forte, só que no sentido errado.

Edmondson tinha três caminhos: reportar um resultado nulo, forçar os dados até caberem na hipótese ou investigar. Antes de estudar gente, ela estudava estruturas. Formou-se em engenharia e design em Harvard no começo dos anos 1980 e trabalhou como engenheira-chefe de Buckminster Fuller, o inventor do domo geodésico, nos três últimos anos de vida dele, até 1983. Engenheiro é treinado a olhar o dado que não encaixa e perguntar por quê. Ela investigou.

Primeiro controlou pela gravidade dos pacientes. A relação ficou um pouco mais forte. Depois olhou um item que ela mesma havia acrescentado ao questionário: “se você cometer um erro nesta unidade, isso não vai ser usado contra você”. Quanto mais a equipe concordava, mais erros apareciam registrados. A hipótese nova era que o dado media duas coisas misturadas: quantos erros aconteciam e quantos as pessoas tinham coragem de contar.

Para testar, ela contratou um assistente, Andy Molinsky, e o mandou às unidades sem revelar a hipótese nem os números. A tarefa era observar o clima. O ranking dele, da unidade mais aberta à mais fechada, bateu quase perfeitamente com o ranking de erros detectados, com uma exceção. Na unidade mais aberta, uma enfermeira havia ligado para um médico em casa para reduzir à metade uma dose que achou alta. Nas fechadas, as pessoas falavam em punição e em como o erro “ficava no seu nome”.

Vale uma correção, porque circula uma versão errada em livros de negócios famosos: Molinsky não contou erros, observou clima. O artigo de 1996, no Journal of Applied Behavioral Science, diz que erro cometido e erro detectado estão inextricavelmente misturados naqueles dados. Edmondson não provou que equipes abertas erram menos. Mostrou que equipes fechadas ficam sem a informação de que precisam para melhorar. O próprio artigo cita um hospital em Salt Lake City que encontrou quarenta vezes mais eventos adversos quando parou de depender de notificação voluntária.

O que é segurança psicológica, segundo o artigo de 1999

Em 1999, na Administrative Science Quarterly, Edmondson deu nome ao mecanismo. O estudo não era de hospitais, outra confusão comum. Ela analisou 51 equipes de um fabricante de móveis de escritório com cerca de cinco mil funcionários e definiu segurança psicológica de equipe como a crença compartilhada de que o time é seguro para correr risco interpessoal. Em termos práticos, é a sensação de que dizer “não entendi”, “acho que isso está errado” ou “eu errei” não vai virar arma contra você depois. Não é ausência de cobrança. É a garantia de que falar não custa a reputação.

Ela construiu uma escala de sete afirmações, tiradas em parte de dezessete entrevistas e oito reuniões observadas, e encontrou que equipes com mais segurança psicológica pediam mais feedback, discutiam erro, experimentavam, e isso se ligava a desempenho. Em 1999 isso era controverso, porque a sabedoria corrente dizia que medo é motivação. A leitura dela era outra: o medo não reduz o erro, reduz a conversa sobre o erro.

A expressão já existia em textos de psicologia organizacional dos anos 1960 e de 1990. O que ela criou foi o conceito aplicado a equipes, a escala para medir e a evidência. E publicou os limites: uma única empresa, sem causalidade estabelecida, sem separar claramente segurança psicológica de confiança.

Projeto Aristóteles: o Google adota a ideia

Por treze anos a ideia ficou no meio acadêmico. Em 2012 o Google, hoje uma das cinco empresas mais valiosas do mundo, iniciou o Projeto Aristóteles para descobrir o que diferencia uma equipe boa de uma ruim. Edmondson não participou. Segundo Charles Duhigg, que contou a história na revista do New York Times em 2016, a equipe do Google encontrou o conceito em artigos acadêmicos quando os próprios dados não faziam sentido.

Foram 180 equipes, 115 de engenharia e 65 de vendas, ao longo de dois anos, com mais de 200 entrevistas e mais de 250 atributos. A hipótese inicial era que tudo dependia da composição do time. Não havia padrão. O padrão apareceu ao olhar como a equipe funcionava. Em novembro de 2015 a empresa publicou um guia com cinco dinâmicas, e a analista Julia Rozovsky escreveu que segurança psicológica era, de longe, a mais importante. Pessoas nessas equipes saíam menos da empresa, traziam mais receita e eram avaliadas como eficazes duas vezes mais pelos executivos.

O contraponto honesto: isso não é ciência revisada por pares. É um post de empresa, com medidas internas e autodeclaradas, e críticos apontam risco de circularidade. O dado mais útil é outro. Equipes que adotaram rotinas novas, como abrir toda reunião com alguém contando um risco assumido na semana anterior, melhoraram 6% em segurança psicológica e 10% em estrutura e clareza, segundo a própria empresa. Segurança psicológica vem de rotina, não de discurso.

Os 33 do Chile e o e-mail que a NASA nunca recebeu

Em 2012 Edmondson lançou Teaming, pela Wiley, sobre trabalho em grupos montados na hora. O caso central virou artigo na Harvard Business Review em 2013, com Faaiza Rashid e Herman Leonard. Em 5 de agosto de 2010, 700 mil toneladas de rocha prenderam 33 homens a cerca de 700 metros de profundidade na mina San José, no Chile. A chance de sobrevivência era estimada abaixo de 1%. O engenheiro André Sougarret manteve comando firme sobre quem decidia e qual era a disciplina, e ao mesmo tempo convidou empresas de perfuração, engenheiros estrangeiros e a NASA a testar abordagens em paralelo. Em 13 de outubro, após 69 dias, os 33 saíram vivos. Os autores escrevem que a escolha entre ser diretivo e dar autonomia é “uma falsa dicotomia”.

O caso oposto é o Columbia. Em 16 de janeiro de 2003, um pedaço de espuma atingiu a asa esquerda no lançamento. Engenheiros quiseram pedir imagens de satélite; a gestão do voo negou. Por volta de 22 de janeiro, o engenheiro Rodney Rocha escreveu um e-mail chamando a decisão de “beirando o irresponsável” e lembrando os cartazes da própria NASA com a frase “se não é seguro, diga”. O e-mail nunca foi enviado. Em 1º de fevereiro, o Columbia se desintegrou na reentrada e sete astronautas morreram. O relatório oficial listou, entre as causas organizacionais, preocupações não ditas. O cartaz na parede não produz voz.

Em Right Kind of Wrong, de 2023, ela separa a falha em três tipos. A básica, em terreno conhecido com procedimento não seguido, é para reduzir ao mínimo. A complexa, que nasce de vários fatores somados, como o Columbia, é para detectar cedo, o que só acontece se alguém fala. A inteligente, o experimento pequeno em terreno novo, é para encorajar. Tratar as três igual é o erro de gestão mais comum que ela vê.

O que essa história ensina

Segurança psicológica não é conforto. Em The Fearless Organization, de 2018, ela cruza segurança com padrão de desempenho: segurança alta com padrão baixo é sofá; padrão alto com segurança baixa é ansiedade, o Columbia e a Wells Fargo; só os dois altos geram aprendizado. Há críticas legítimas, como a base original pequena e correlacional e a inclusão discutível da Nokia entre os casos de cultura do medo. Nada disso derruba a ideia, mas mostra o limite: segurança psicológica é condição para aprender, não garantia de acertar.

  • O número de problemas reportados não mede quantos existem. Mede quantos as pessoas têm coragem de contar. Zero ocorrência é medo até prova em contrário.
  • Responda à má notícia com uma pergunta antes de responder com um veredito, e faça disso rotina semanal.
  • Mantenha o padrão alto ao mesmo tempo. Comando e abertura não se anulam, como mostrou o Chile.
  • Para quem está na ponta: o e-mail no rascunho não protege ninguém. Leve dado, impacto e pedido específico.

Eu leio o legado dela assim: a melhor equipe não é a que erra menos, é a que fica sabendo dos erros primeiro. Para estudar, o caminho é o artigo de 1999, que é curto, e depois The Fearless Organization e Right Kind of Wrong.

Fontes

  • Edmondson, A. (1996). Learning from mistakes is easier said than done. Journal of Applied Behavioral Science.
  • Edmondson, A. (1999). Psychological safety and learning behavior in work teams. Administrative Science Quarterly.
  • Edmondson, A. (2012). Teaming. Wiley.
  • Rashid, F.; Edmondson, A.; Leonard, H. (2013). Leadership lessons from the Chilean mine rescue. Harvard Business Review, jul./ago.
  • Edmondson, A. (2018). The Fearless Organization. Wiley.
  • Edmondson, A. (2023). Right Kind of Wrong.
  • Duhigg, C. (2016). What Google learned from its quest to build the perfect team. The New York Times Magazine.
  • Google re:Work (2015). Guia do Projeto Aristóteles.
  • Relatório do Columbia Accident Investigation Board (2003).
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